segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

SONETO DA VINDA - Ilustrações de Túlio

Soneto da Vida
Vim dar-me a ti. Sinto-te, vez em quando.
Nas sombras dos meus sonhos me acompanhas.
Musica dos teus olhos me embalando,
Me fazendo sonhar coisas estranhas.
Nao venho como estavas esperando.
Venho como sou: pobre, sem façanhas.
So posso dar-te um coraçao sangrando
Com o sai das minhas magoas nas entranhas ...
Vem, bebe em minha boca os meus soluços! (Ah! quantas vezes solucei de bruços sobre a angustia que boia em meu olhar!)
Sei que me vais dizer coisas amigas,
Sei que os teus olhos cantarão cantigas
E os meus, de alegres, vao querer chorar.
(BW)

O APARECIMENTO DE UM POETA - Rômulo Wanderley


O APARECIMENTO DE UM POETA

            Os jornais e as estações de rádio de Natal estão anunciando, para o meio-dia de hoje, no gabinete do Prefeito Djalma Maranhao, mais um livro de versos. O acontecimento seria sem maior importância se o poeta, autor desse livro, nao fosse um dos novos, cujos trabalhos tem merecido apreciações elogiosas dos mestres, alguns dos quais (Othoniel Menezes, "Cançao da Montanha") já Ihe ofereceram versos, num apreço muito significativo.
           "Telhado do Sonho" é o livro desse jovem que se chama Berilo Wanderley, e a quem conheço como a palma das minhas mãos. Somos amigos desde muitos anos. Tive-o em meus braços nos primeiros dias de sua infância e de lá para cá jamais dele me afastei. Por isso, julgo-me autorizado a falar sobre a sua pessoa, os seus primeiros passos na vida e nas letras, as suas traquinadas e os primeiros contatos com livros e cadernos, dos quais se tornou amigo e admirador.
             Ainda hoje me lembro dos primeiros versos que compôs. Embalando-se numa rede de alpendre, onde o pai costumava fazer a sesta e as leituras do dia, o menino de então se entretinha a cantar o que ouvira no rádio ou na "vitrola". E, quando não se lembrava de uma estrofe, substituía-a por outra de sua imaginação, de rima e métrica imperfeitas, com os defeitos próprios de um improvisador de sua idade.
            Eram, porém, manifestações de uma tendência que ninguém provocava e que despontava naturalmente, como falar e outras demonstrações da vida humana.
            Crescendo e estudando, foi fazendo versos que ele escondia dos seus, como quem guarda uma coisa proibida. No entanto, descoberto que o rapaz era poeta, não pode ele negar dos seus intímos, nem dos seus colegas e amigos, a vocaçao que Deus Ihe deu para encantamento do seu espírito e de quantos apreciam a Poesia.
(Rômulo Wanderley)

BERILO WANDERLEY - Woden Madruga

         Amanhã, 20, faz trinta anos da morte do poeta e cronista Berilo Wanderley. O Sebo Vermelho está reeditando o seu livro de estréia, Telhado do Sonho,  seu primeiro e único livro de poemas, publicado em 1956. O lançamento será no começo da noite de terça-feira, 21, no Lula Restaurante. Berilo começou no jornalismo nas páginas de Tribuna do Norte, ainda nos anos 50. E aqui escreveu a sua última coluna, Revista da Cidade, 20 de julho de 1979. Era uma sexta-feira. Berilo morreu no amanhecer  deste dia. Tinha 45 anos.  No sábado dediquei todo espaço do Jornal de WM à memória do querido amigo e companheiro. No mesmo rastro das saudades perenes, repito hoje o texto:
           “Lá se foi Berilo. Inacreditável a notícia de sua morte que nos chega como uma paulada ou um choque nos deixa entre incrédulo e brutalizado. Luís Carlos Guimarães, vizinho de frente, me tira da cama com o primeiro choque: Berilo teve um enfarte violento. Cinco minutos depois volta chorando: o poeta morreu!
            Eram sete horas. Meia hora depois, ele deveria, como fazia todas as manhãs, chegar à redação com sua coluna diária. Morrera às cinco, quando mais ou menos acordava, madrugador habitual, para escrever a sua “Revista da Cidade”. Foi com este título que há 23 anos começou a fazer jornal aqui mesmo na Tribuna do Norte.
            Berilo andava pela redação dando os primeiros passos na reportagem. A “Revista da Cidade” era uma coluna que eu assinava todos os dias já há algum tempo. Fui passar uns meses em Maceió e ele ficou de interino. Quando retornei, o poeta havia conquistado o espaço. A crônica leve, descontraída, o estilo simples, enxuto, a ironia fina, a farpa bem colocada, estava no gosto do leitor. Mexia com os assuntos do cotidiano, descobrindo tipos que ele encontrava pelos becos e bares da Cidade, contando histórias, registrando acontecimentos, ocorrências literárias da província, as primeiras descobertas da noite, a boemia entre amigos, recados para Maria Emília nas entrelinhas de suas anotações ou nos versos que publicava.
             Sexta-feira outra, uma noite na casa de Leda e Luís Carlos Guimarães, seus velhos amigos e companheiros, bebíamos vinhos e falávamos sobre os bons amigos. Luís Carlos era outro encantado com a prosa de Berilo. Este mesmo tema ocupou um bom pedaço de tempo de uma conversa que tive com Zila Mamede, na Fundação José Augusto. Berilo tinha que publicar o seu livro de crônicas. Difícil era convencê-lo, passar pelo seu despojamento, um pessoa sem vaidades. Berilo não pensava em publicar livro nenhum. Mas nós iríamos topar a empreitada.
           Quinta-feira conversamos pela última vez, aqui mesmo na redação, no começo da tarde. Veio trazer a “Revista da Cidade” de domingo, pois o Segundo Caderno dessa edição era fechado na sexta. Demorava pouco, entregava a matéria e se perdia num dedo de prosa com os colegas: literatura, cinema, música popular brasileira, vinhos. Era o que gostava de conversar. Quando não, quedava-se em ouvir e sempre o fazia assobiando um chorinho, um samba, qualquer outra música que apreciava. Na nossa conversa derradeira da quinta-feira folheamos juntos o último livro de Hélio Galvão e ele, que não era muito de elogiar, não deixou de admirar a profundidade o valor da obra. E discretamente como entrou, deixou a redação como um até logo.
           Éramos amigos há 26 anos. Conheci-o em rodas de poetas e boêmios na calçada da Sorveteria Cruzeiro. Berilo se destacava do grupo e chamava a atenção de todos não somente pela inquietude e a ironia fina, mas também porque gostava de usar uma varinha de bambu como se fora um marechal de campo. Mas a nossa amizade se firmou mesmo quando fomos convocados para servir no Exército. Decididamente foi o soldado mais desengonçado que passou pelo 16º. Regimento de Infantaria. O grupo está todo aí: Márcio Marinho, Varela Barca, Tota Zerôncio, Daniel Diniz, José Erb Ubarana, José Mesquita Filho, Aildo Gibson, Walderedo Nunes. Dos que me lembro agora enquanto tento, Deus sabe como, escrever essas coisas. Éramos os responsáveis pelo máquina burocrática do Regimento. O poeta exatamente, imagine, o encarregado do serviço do protocolo.
          Depois foi a fase da Faculdade de Direito. Fazíamos um jornalzinho “subversivo”, acho que a primeira experiência de imprensa alternativa. “O Porrete” era o nome do jornal, todo mimeografado e que nos dias mais incertos e inesperados aparecia causando furor nas salas de aulas do velho casarão da Praça Augusto Severo, onde hoje, veja só, funciona a Secretaria de Segurança. Foi por esse tempo, me parece que em 1956, que o poeta publicou o seu primeiro livro, Telhado do Sonho.
          O poeta navegava no seu lirismo. Tinha 22 anos de idade. Foi o único livro que publicou. Depois, o jornalismo foi consumindo o poeta. Nascia o excelente cronista, o crítico literário, o crítico de cinema, dividindo o tempo com uma promotoria pública e uma boemia que sempre o acompanhou. Esteve na Europa fazendo um curso no Instituto de Cultura Hispânica. Entre outras coisas, voltou doutor em vinhos, doutoramento que o levava quase religiosamente ao generoso balcão do bar de Nemésio, o espanhol. Também andou por terras de São Paulo e Rio de Janeiro, fazendo jornalismo. Mas o apelo da terrinha foi mais forte. Veio e retornou ao jornalismo diário e ao ensino.
            Fui reencontrá-lo na Fundação José Augusto, ensinando no Faculdade de Jornalismo Eloi de Souza. Depois na UFRN para onde fomos juntos com o curso. Quando assumi pela terceira vez editoria de Tribuna do Norte, nesta atual fase, fui buscá-lo na A República para assinar a sua “Revista da Cidade” em nosso Segundo Caderno.
           Nos últimos anos, conversávamos praticamente todos os dias. Ou aqui na redação ou pelas alamedas e salas de aula do Campus ou nas casas dos amigos comuns. Fora do trabalho, nos encontros sociais ou nos desencontros dos restaurantes e bares da Cidade, ele sempre ao lado de Maria Emília, sua mulher, companheira, amiga, um namoro do qual sou testemunha de seu nascimento. Trocávamos livros sobre os quais fazíamos comentários e tínhamos o mesmo gosto pelos bares quase vazios e uma queda para apontar o ridículo da província.
          Berilo Wanderley morreu aos 45 anos de idade. Deixa Maria Emilia, sua mulher, quatro filhos menores, sua mãe, Dona Maria Amélia, o irmão Gilberto. Deixa uma saudade enorme nos amigos, companheiros e uma legião de admiradores. Deixa uma enorme vazio nesta Cidade, hoje muito mais carente de valores humanos. Berilo morreu dormindo. O seu coração parou no alvorecer de Natal. Neste instante da tragicidade da vida, caberia aqui cantar um verso de um de seus poemas: “Passa o alento, passa o vento, já não sou”.

(Woden Madruga - 19/07/2009)

domingo, 26 de dezembro de 2010

BLOG LUZES DA CIDADE - Francisco Sombreira

 

Berilo Wanderley (1934-1979) foi o melhor cronista do Rio Grande do Norte. No mês em que se completa mais um aniversário de sua morte prematura, este blogue presta-lhe uma homenagem, com a publicação de duas crônicas, retiradas do seu livro póstumo "Revista da Cidade" ( EDUFRN/1994). BW foi também um brilhante crítico de cinema. Em vida, publicou o livro de poesia "Telhado de Sonho".



CHEIRO DE CHUVA
As madrugadas jão estão mais frias e as manhãs nos assaltam com um céu cinzento entrando pela janela. No pombal, os pombos amanhecem inquietos e festivos e o macho faz prosa arredondada de namorador em torno de sua fêmea. Há sinais de chuva pelo ar. As largas folhas das bananeiras acordam orvalhadas e os bogaris, a um canto do jardim, tomam jeito de véu de noiva, leves e rendados. Aspira-se um cheiro de chuva que, antes de vir, manda recados com boas notícias, que chegam através das plantas e das aves.
E as mulheres se tornam amantes mais ternas e atentas aos apelos dos seus homens, e nos gestos e na fala põem alguma coisa que as revela como aptas para as surpresas sempre renovadas do amor. Jeito de mulher acarinhar o homem traz prenúncio de inverno e só os maus amantes, ou aqueles homens dados ao capricho estranho de não gostar de mulher, ignoram esta verdade límpida.
Madrugadinha. Céu pesado de nuvens. Olha ali um bem-te-vi- me saudando lá daquele galho do pé de azeitona-da-terra!
A LUA
Um amigo nos chama a atenção para a lua, que ainda não tínhamos notado, mas que já andava, há quase uma semana, sobre os telhados da nossa cidade. Malditas obrigações que nos fazem esquecer uma lua! Mas, ontem, procuramos vê-la. Estava detrás de u'a mangueira e já vai muito grande e muito vermelha, o que é sinal que está a caminho do quarto minguante, ou de outro qualquer.
Lua por detrás de mangueira dá o que pensar. Parece que tem mais encanto do que se apresentando no alto do céu, completamente nua, despudorada. Também u'a mulher sem roupa, se esgueirando matreira por detrás de uma folhagem, chama a atenção dos nossos olhos mais do que se aparecesse sem mistérios, no meio da rua, cruazinha. É a mesma coisa. Lua escondida por detrás de mato é como mulher, idem, idem.
Outra beleza de lua escondida é a renda que ela forma pelo chão. A areia parece uma toalha estendida, toda rendada, feita de linha branca, de linha que desce em fios, das folhas das árvores, das palhas do coqueiro lá de frente.
Ai se não fosse essa lua! Tem razão em dizer isso o velho Drummond. Se não fosse essa lua, como é que os seresteiros de nossa cidade se iam arranjar, para sair de noite pelas janelas afora, entoando loas às donzelas e à lua, que é também donzela, embora nua?
E os namorados, que conversas teriam, sem uma lua assim, numa noite assim? E os poetas, os bissextos e os de todos os dias, os novos e os do parnaso, sempre contemporâneos?
Ah, se não fosse essa lua! Sintamos e gozemos este luar, mesmo sem casa de chá e sem agosto.
(Fonte: Blog Luzes da Cidade - Julho de 2006)

PRÊMIO FESTIVAL DE CINEMA DE NATAL - ANO 2010

               

PRÊMIO BERILO WANDERLEY 2010

Maria Emilia Wanderley, viúva do saudoso e inesquecível crítico de cinema da Tribuna do Norte, entregou o troféu ao critico e pesquisador cinematográfico Moacy Cirne, pela sua valiosa contribuição a divulgação da cultura fílmica no Rio Grande do Norte.

(Fonte: Refletores da Fama)

HOMENAGEM DO NORDESTE.COM - www.nordeste.com

Francisco Berilo Pinheiro Wanderley nasceu em Natal, a 21 de abril de 1934. De infância comum, aluno marista, recebeu uma educação literária, segundo ele, aquém de medíocre. Formado em Direito, ainda enfrentou a Promotoria Pública onde se desencantou. Em 1956, com apenas 22 anos de idade, reuniu alguns sonetos e poemas e publicou 'Telhado do Sonho;, seu único livro, com ilustrações do seu primo e amigo Newton Navarro. Poeta, cronista, trabalhou também como jornalista.

O poeta foi cedendo lugar ao jornalista, revelando um excelente cronista, crítico literário e de cinema. Na nova profissão, trabalhou no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas o apelo de sua terra foi mais forte. Foi professor do curso de Jornalismo da Fundação José Augusto e depois da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O Centro Acadêmico daquele curso, até hoje, leva seu nome.

Durante muitos anos, assinou a coluna Revista da Cidade, no jornal Tribuna do Norte. Tamanho talento tinha uma fonte inspiradora que era conhecida de todos: Maria Emília, sua mulher. Dessa união surgiram Henrique, Milena, Rômulo e Alexandre, além de linhas e linhas de poesias e crônicas, que imortalizaram o amor entre os dois.
Em 1994, quinze anos depois de sua morte, com o título de "Revista da Cidade", foi lançado um livro de contos, crônicas, poemas e fragmentos de Berilo Wanderley, organizado por Maria Emília Wanderley.

sábado, 25 de dezembro de 2010

CINEMA É ILUSÃO - Vicente de Serejo

CINEMA É ILUSÃO
               Uma vez, uma colega de jornal, entre o riso quase irônico e a  curiosidade invencível, perguntou a mim: você nao acha que Greta Garbo está muito velha para ser sua musa? Na epoca, e vivíamos os anos setenta, Garbo ainda estava viva. OIhei para minha companheira de redaçao e respondi como se titulasse uma história de amor: as musas são eternas. É o que repito hoje, bem trinta anos depois. Agora ela não esta mais viva. Mas, mesmo assim, ninguem nunca vai apagar do seu rosto aquele olhar mormaço.
               Esse toque de lembrança, há tempos guardado entre os guardados da alma, só tem importancia no plano das coisas superiores. Faz parte do mundo metafísico, como todas as coisas nascidas da ordem mágica da transcendência. Como a visita, numa noite antiga, que Marlene Dietrich fez ao poeta Berilo Wanderley. Aquela mulher bonita como a noite. Pernas longas e brancas, fugindo, passo a passo, pelo corte do vestido. E aqueles seus oIhos que segundo o poeta tinham a sensua1idade de uma onça no cio.
             Devo reconhecer, afinal a falta de humi1dade é pecado sem perdão, que Berilo sempre teve muita intimidade com as musas do cinema. Já no meu caso, menino do interior que fui, nunca passou de um exercício de comtemplação. Enquanto Berilo vivia com elas as grandes histórias de amor, a mim restava olhar de longe. E com tanta cerimônia - eu que nunca tive chance de receber a visita de Greta Garbo - que todos os meus encontros eram sempre casuais. Viviam distantes. Inalcançáveis, mágicas e sensuais.
               Marlene, apaixonada como era por Berilo que importa que seja coisa da imaginação! eu acredito. Mas, Greta Garbo, e o seu jeito de solidão, seria impossível. Não para exibi-la ao meu lado, - e seria cruel contra os  desafetos! - mas para tê-la comigo, de maos dadas, em longos passeios bem perto do mar. E quando me perguntassem quem era aquela mulher tão bonita e tão misteriosa, eu diria apenas que era uma velha amiga. E que viera de longe, só para me contar histórias de amor, mistério e solidão.
                Daí esse encantamento todas as vezes que leio Berilo Wanderley contando como foi a visita de Marlene Dietrich numa calma madrugada de Natal. Ele servindo uísque em copo pequeno e sem gelo, como ela gostava. Marlene tão bonita e tão íntima, e tão humana nos seus desejos de mulher. Marlene deitada no sofá da sala da casa do poeta. Agarrando firme o copo com as suas unhas que pareciam garras; com uma perna jogada pro alto e outra no chão. Marlene viva, inteira, com seu corpo chamas.
            Hoje, anos e anos depois, minha dúvida é a mesma de quando li a primeira vez: se estivesse lá, tomando uísque com Berilo, chamaria Maria Emilia ou ficaria em silêncio, solidário ao poeta, na mais bela visão que um amante de cinema pode ter na vida? Nao sei. Talvez chamasse. Talvez não. Mas, se chamasse, cuidaria de dizer que nao se deixasse impressionar com Marlene Dietrich em chamas. E daria a Maria Emilia a mesma e bela explicação que um dia Valério Andrade ensinou a mim: cinema e ilusão .
 (Vicente de Serejo) 

BERILO, BW, BERILO - Ney Leandro de Castro



BERILO, BW, BERILO

            Berilo Wanderley era um. excêntrico light, ameno, cordial. Ele podia  decretar alguns dias de silêncio e solidão para si mesmo, mas logo depois estava numa mesa de bar conversando sobre cinema, discutindo textos  dos seus autores preferidos e rindo um riso maravilhodo quando o interlocutor o atingia com uma tirada de humor.
Dividir uma mesa de bar com Berilo era uma dádiva. E essa dádiva sempre foi mais concedida a Maria Emilia, sua namorada, seu xodó, seu grande amor. No Granada, geralmente as quintas-feiras, numa mesa iluminada pelo abajur lilás da paixão, diante de uma garrafa de vinho e duas taças, lá estavam Berilo e Maria Emilia. Conversavam baixinho, olhos nos oIhos, como duas pessoas que estivessem trocando as primeiras palavras, os primeiros encantamentos. O amor era lindo. De vez em quando, um intruso pedia licença e se sentava com o casal, que nao o repelia  par delicatesse, como diria um poeta admirado por Berilo. Na maioria das vezes, eu ficava numa mesa distante, pensava na minha infelicidade e tinha medo.
          Uma das lembranças mais bonitas que guardo de Berilo data de 1961: foi a sua volta de Madri, onde ele fez pós-graduaçao em Direito. Os amigos organizaram um desfile de carros que passou pelo Grande Ponto, levantou multidões (o povaréu devia pensar que era Yuri Gagarin ou do mesmo nível) e seguiu para a Presidente Quaresma, endereço de Rômulo Wanderley, pai do homenageado e meu querido professor no Atheneu. Foi festa muita. Bebida no meio da canela, comida para um Regimento de Infantaria.
           Desfile igual aquele, só quando Marta Rocha se exibiu de maiô (ai, meus pecados!) pelo Grande Ponto, pouco depois de perder o concurso de Miss Universo por duas polegadas a mais nos quadris.
          Berilo, o excêntrico cordial, procurava esconder sua timidez, mas na maioria das vezes não tinha êxito. Aquela festança foi aceita e suportada por ele movido a álcool. No dia-a-dia, sua timidez quase sempre prevalecia. Como promotor de justiça, se desentedeu consigo mesmo: era muito tímido para enfrentar o teatro do juri popular e poeta demais para pedir a condenação de alguém. Eu o vi, só uma vez, atuar como promotor de justiça, quando por pouco não pediu a absolvição do réu.
          Era assim mesmo. Para Berilo o que valia era a mulher amada, os filhos, os amigos, as mesas de bar, o cinema, a literatura. Dinheiro era bom porque pagava os vinhos de Nemésio Morquecho, mas ganhá-lo com uma profissão daquelas era um horror. O jornalismo que ele exerceu com brilho seria uma boa opção, se o salário desse, pelo menos, para fazer umas compras no Alecrim.
          Em horas de tristeza e desapontamento, me enternece a lembranças de ter convivido com pessoas como Berilo Wanderley, Newton Navarro, Luís Carlos Guimarães. Talentos múltiplos, almas generosas, inteligências fora do comum. Vejo os gestos largos e ouço a risada de Berilo, escuto os ensinamentos de Newton, bebo a última taça de vinho com Lula. Não, os meus mortos não estão dormindo profundamente. Eles caminham comigo, fazem uma doce algazarra, quebram os silêncios da minha alma.
(Ney Leandro de Castro)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

QUE MARLENE....E NÃO É QUE É MARLENE...


QUE MARLENE....E NÃO É QUE É MARLENE...

            E nao é que MARLENE DIETRICH acaba de entrar, sem bater, e cheia de provocaçao, ainda segurando o trinco da porta, me grita: "Quero um uisque!" Mas, a esta hora, MARLENE, é quase meia ­noite, que dirão os vizinhos? E além do mais, você assim ... nesse vestido aberto ... essas pernas de fora ... me deixa em paz, MARLENE ... 
            A mulher está impassivel, mão no trinco da porta, um olhar de onça no cio, cigarro no canto da boca. Só falta cantar "LOLA LOLA".Que fazer?'Largo o livro e saio, como um louco, em busca de um uisque. Grito pelos corredores da casa: "Um uisque para MARLENE DIETRICH! Pareço Ricardo I querendo trocar seu reino por um cavalo.
            Afinal, volto, copo de uisque na mão. Puro em um copo pequeno, sem gelo, como ela gosta ... Quando chego, a terríve1 mulher já nao está com a mão no trinco da porta. Está deitada no sofá, olhando para o teto, jeito muito debochado, uma perna na parede, outra atirada para o chão, cigarro ainda no canto da boca. Passou-lhe o uísque. Não vou dizer que ela segurou o copa porque é pouco. Ela agarrou o copo. Com garras, com unhas que unhas terríveis as de MARLENE DIETRICH! com dentes. E tomou a dose de uma só vez. Cinco minutos depois, pulava do sofá e cantava exatamente o "Lola Lola". No meio da sala lânguida. Cigarro entre os dedos, corpo em chama, pernões para o ar.
             MARLENE, MARLENE. ..
(BW)

DO CAJU E SEUS DONS

DO CAJU E SEUS DONS
Nesta vida, quando não se é amante, é-se amigo, esta forma mínima de dar-se a outrem. E neste novembro, tendo-se amante e tendo-se amiga convém mandar a uma ou a outra uma cesta de cajus.
Lembrei-me de dizer isto hoje, por causa da cesta que acaba de sair daqui de casa, a caminho da casa da amiga que todos os novembros saúdo com uma cesta de cajus. É a melhor forma que tenho para louvar-Ihe a beleza que me ungiu o ano inteiro. E este ungir é verbo que uso só quando me refiro a ela. Quanto à amante ...
           Quanto à amante, recomendo igualmente a cesta de cajus a quem tenha uma (amante). E quase todo homem tem a sua. Excetuam-se os noivos e os neocomungantes, e aqui me ponho entre os primeiros, com humildade.
           Mas os cajus estão belos. Belos e dourados. Dourados e tendenciosos. Tendentes à embriaguez, à volupia, e também ao repouso dos nervos do coracão.
A tudo se presta o caju, desde que esse tudo saiba se impor. Dele. a amiga faz a cajuada; a amante, o caju-amigo. Dois destinos. Duas formas de iludir a morte. Pendente do galho, amarelo ou vermelho, costuma ser injetado de aguardente. O caju está de vez e ali fica ainda quatro, cinco dias, violado, seduzido pelo álcool. Colhido afinal, ja nem é caju nem aguardente. Na superfície amarela (ou vermelha) cheira com agudeza a orilha de rio. Por dentro, trava arrogante e dulçorosamente. E a medida que vai sendo chupado nos vai humilhando, até que nos deixa reduzidos a como se fôssemos um colibri e cantássemos fogo em vez de som, na orla de um bosque-mulher.
Mas o caju aleitado no galho é arte sábia em que dificilmente se acerta a dose exata para o fim exato, esse de colibri. O simples é mandá-lo à compota, que pode engordar, à cajuada, que tonifica os nervos e ajuda a enfrentar melhor os negócios e as pragas dos inimigos e dos maus parentes. Assim procederá com ele a amiga e a amante. Aquela, recebida a cesta, consumirá lentamente os cajus, a sós, debruçada na janela, como faz a do meu caso. A amante deixará a cesta sob o sereno de duas noites e, na terceira, mandará um recado a quem a endereçou. E nessa terceira noite farão dos doces frutos o que bem Ihes aprouver e mais Ihes recomendar o gênio e as manhãs.
(BW)

BERILO VIVO - Celso da Silveira

          BERILO VIVO

         Esses os Iineamentos que fize­ram Berilo estimado dos que dele se aproximaram, e admi­rado pelos que o conheceram só pela leitura de suas crônicas.
          Tinha a percepçao justa de suas emoçoes e se conhecia na sua timidez. Resguardava-se na Natureza, com experiências de sementes que semeava em sua horta, ou com o canto dos pássaros que desciam em vôos rápidos e se alimentavam do alpiste que jogava no quintal, ao lado do vasilhame com boa água para se dessedentarem.
           Apascentava o seu rebanho de modestas ambiçoes - uma casa entre árvores, couves e pimenteiras, na estrada da Re­dinha, longe do tumulto, mas bem perto de Maria Emilia, Juca, Gordo, Poeta e Milena, e de muitos livros.
          Seus contentamentos eram feitos de coisas simples, suas amplitidões eram limitadas na dimensão do mundo ao seu cantinho, mas seu olhar pe­netrava-se de curiosidade pela sabedoria e extasiava-se dian­te de muitas leituras.
          Sua sutileza transbordava na conversa passageira, mergulha­da de conhecimento e amplia­da na vazão de amparar aos que dele esperavam ajuda.
          Vibrava, nas suas mãos em concha, os tons de choros, sambas e marchinhas, mar­cando com as pernas flexionadas a coreografia desses ritmos, como um bem-aven­turado diz sua oraçao.
          Não tinha tristezas, nem amarguras, nem desequilibrava os dons da vida. Irradiava suas tendências à alegria, como quem se doa por uma questão de doar-se, recusando, sempre, ser engrandecido;
         De nada se queixava. Mal algum abalava o seu jeito de compreender a maldade. Combinava os motivos de desconfiança com um otimista enqua­dramento das pessoas. Era puro no julgamento, porque antes autojulgava-se. Nele não havia subterrâneos. Tudo era claro e puro e são.
         Era um informal, que não conseguia ostentar qual­quer vaidade, nem absorver elogios, nem se mostrar na virtude. Não tinha, realmen­te, aptidao para o sucesso, era, apenasmente, um Poeta. Um meigo amigo. Bom basta!
(Celso da Silveira)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A GUERRA IDEOLÓGICA DOS RATOS

A GUERRA IDEOLÓGICA DOS RATOS

           Os ratos lá de casa não tiveram mais o que fazer, intelectualizaram-se e, além do mais, como recomenda o processo da história, firmaram suas ideologias políticas que estão defendendo com unhas e dentes, principalmente dentes. Comecei a desonfiar dessas últimas tendências quando o meu volume de "O Capital", de Marx, amanheceu com várias páginas roídas. No dia seguinte, em contra-ataque, a prateleira onde alinhei a literatura norte-americana acordou quase inteiramente devorada. Um grupo de ratos vermelhinhos não gostara, decerto, da guerra dos ratos antiianques (sic) sobre Marx e fez a investida, e, no final das contas, sem Organização das Nações Unidas para ter a quem apelar, saiu o dono dos livros com a carga do prejuízo.
            Mas a guerra fria não cessou aí. Houve, é certo, um armistício que durou mais de uma semana e que me animou bastante. Julguei que os contendores tivessem decidido, nalguma conferência dos Grandes, votar pelo desarmamento, a bem de uma melhor digestão deles próprios contendores, resolvendo retornar às aprazíveis colinas das cozinhas e dos armários, onde a vida é mais mansa à noite e as guerras ideológicas não têm sentido. Mas esta semana, não sei que reviravolta aconteceu, pois o grupo reacionário resolveu quebrar o tratado de paz, ou, simplesmente, o armistício tentado na última conferência. Dois romances de Leon Tolstoi, meu caro e barbudo Tolstoi, despertaram roídos. Desconfio que essas barbas é que atiçaram a ignorância dos ratinhos antiamericanistas. Tolstoi jamais sonhou com a revolução cubana, quando deixou crescer suas respeitáveis barbas brancas que, mansamente cofiadas, o ajudaram a bem escrever a "Guerra e Paz". Mas os ratos, decerto maus alunos de literatura, desconheciam tanto Tolstoi como a isenção política de suas barbas brancas, e largaram os dentes contra os dois romances, os quais traziam o retrato do velhote russo nas primeiras páginas. Ando assustado e já me decidi por algumas medidas urgentes, para evitar uma Grande Guerra. Encaixotei o resto de Tolstoi, mais Dostoiewsky, mais Pusckyn, inclusive Pudovski e Eisenstein e tudo mais que é russo. Para outro lado do quarto, meti noutro caixão os norte-americanos, de Melville a Faulkner, de Poe a Frost. Sempre que possível, devemos evitar as guerras. Face ao meu gesto, um dia um conselho de ratos sábios e serenos saberá outorgar-me o Prêmio Nobel da Paz. Que já comecei a esperar, com vaidade.
(BW)

BERILO, O SIMPLES - Woden Madruga

BERILO, O SIMPLES

            Berilo Wanderley morreu quando chegava aos 45 anos de idade. Foi jornalista, professor universitário, promotor público, crítico literário e de cinema, boêmio, amante de vinhos e da música, poeta.
            No jornalismo, a sua atividade intelectual amadureceu na crônica do cotidiano, gênero que dominou soberano juntando a técnica da informação jornalística, fundado no factual que soube aprender no dia-a-dia das redações, ao talento literário que mais nele era intrínseco e que veio a desenvolver no longo e sofrido aprendizado existencial e na leitura dos melhores autores.
            Cronista, Berilo foi um escritor e ao mesmo tempo jornalista que sabia esgrimar a arte da palavra, como fenômeno estético, preocupado não somente na empatia do leitor, mas, também, em lhe oferecer o registro dos fatos reais, descrevendo os acontecimentos que ocorriam no espaço provinciano ou àqueles outros, além fronteiras, que normalmente repercutiriam no universo local.
            Nesse ofício, BW muitas vezes transmudava e recriava uma nova realidade e aí, tínhamos o traço marcante do ficcionista se conflitando com o repórter. Suas crônicas nos chegavam com os primeiros contornos do contista/novelista que nele existiu em potencial, mas que a atividade diária de jornalista ao lado de outras que necessitava para a sua sobrevivência, obrigavam-no a deixar na poeira das gavetas seus planos literários mais audaciosos.
          Berilo foi um lírico e um romântico. Um lírico telúrico, voltando “as coisas da natureza, o canto e o vôo dos pássaros, as flores, os rios de sua geografia sentimental, o pôr do sol, o amanhecer do sertão, o pastoreio das ovelhas, o cantar dos galos madrugadores, as cores do mar, as manhã ensolaradas, tudo que captava a sua profunda sensibilidade de poeta.
         Foi um romântico no mais verdadeiro sentido chapliniano. Aqui, temos o cronista urbano anotando os pequenos dramas e comédias da cidade, retratando heróis humildes - formidável criador de tipos – caricaturando os poderosos e prepotentes que nunca escapavam a sua crítica mordaz e à ironia fina, capazes de levantar o roupão que veste o ridículo desses falsos deuses.Foi um satírico de tipos e costumes.
           A comédia humana sempre esteve presente na sua crônica diária. São histórias pungentes, trágicas, burlescas, ridículas. História de amor, humanas, porque na obra de Berilo está presente a própria e inescapável crônica da condição humana. E, por isso mesmo, na leveza do seu estilo ágil e aprimorado, intimista e coloquial, simples e paratático, no texto enxuto que tanto lembrava Eça e Machado, dois de seus autores prediletos, vamos encontrar a preocupação metafísica, o problema social, a questão política.
           Sim, porque Berilo, aparentemente um observador do banal cotidiano, nunca se divorciou, porém, da realidade de seu tempo, pois ele próprio foi um homem de seu tempo que sabia transformar e dimensionar com equilibrado nível de consciência, o trivial em motivo de reflexão.
           O ofício do cronista foi também – e porque não principalmente – um ato de profundo amor, pois sabia que a vida é amor na lição mertoniana. Sua arte e seu jornalismo estão sulcados o respeito aos direitos do homem, à liberdade, à justiça, às coisas simples da vida, não fora ele um cultor da simplicidade. Poeta e homem, difícil, é muito difícil, separar em Berilo o esteta/criador da grande e rica personagem que ele foi dessa tragédia que, sendo de todos nós, foi sua – a tragédia existencial – que é de todos os homens porque é da natureza humana
(Woden Madruga)

HOMEM SÓ


Homem Só
Além da janela, os ramos verdes
e um resto de tarde se apagando.
Mulheres de branco, os rostos parados e frios, passam.
Algumas colhem flores friamente,
como se não colhessem flores,
Homens tristes e abandonados descem do alto da rua.
Vem do trabalho que ficou lá no fim da cidade,
e trazem para suas mulheres suor, pão quente e amor.
Sempre há amor nos homens quando as tardes findam.
E sempre haverá mulheres de branco apanhando flores,
quando as tardes findam.
Há amor também no homem só
que está por trás da janela
e se embala numa rede azul.
Um azul que vai e vem e que arranca do homem
uma canção que se apaga com a tarde
e que vai enchendo de noite
o entardecer do quarto.
(BW)

BERILO, O AMIGO - Luís Carlos Guimarães



BERILO, O AMIGO

            Este telefonema me acordando nesta manhã de 20 de julho foi uma bofetada, uma incisão funda na carne, a ferida que não posso imaginar quando vai cicatrizar. Do outro lado da linha, a voz amiga de Dalva de Oliveira, doida na comoção da terrível notícia, me dizia o irremediável: "Lula, Berilo morreu de um enfarte, pela madrugada". Leda, ao meu lado, teve a suficiente coragem para saber os pormenores do acontecimento, que eu, desarvorado, estava possuído pela sensação do nada.
            É difícil - e como dói? - falar de um verdadeiro amigo numa hora dessas. Daquele amigo que escolhemos para ser o nosso irmão de todos os momentos. O eleito da amizade. O muito que se diga é pouco, mais ainda quando se trata de Berilo Wanderley, cujo o espaço humano ocupado na minha amizade e no meu coração ultrapassa todas as medidas da estima e da ternura. O puro que ele era, a alma transbordante de generosidade. O jornalista, o cronista, o poeta que escondia seus poemas, o ficcionista que nunca mostro sua novela. Uma sensibilidade mergulhada na música popular brasileira. A do tempo de Noel, Geraldo Pereira, Wilson Batista e Pixinguinha. O pai de Alexandre, Rômulo (o poetinha), Henrique e Milena. Grande demais para uma vida tão pequena.
             Guiado pela sua amizade pude compreender o muito de religioso que tem a bondade. Quem não perceberia isto em sua companhia? Neste momento, invoco o testemunho de Woden, Grácio, Celso, Mirian, Sanderson, Diógenes, Dorian, Zila, Meira, Jardelino, Navarro, Melquíades, Rubens Lemos, Eulício, para falar só daqueles que mais constatemente fruíam de sua convivência. E se não bastasse a palavra desses amigos, ninguém melhor para confirmar o que digo do que Maria Emilia, sua admirável mulher. Mary (como ele só ternura a chamava), que ao lado do poeta demonstrava que dois são um, pela dádiva, o mistério e o milagre do grande amor que os unia.
              Vai passar muito tempo para que eu acostume com a morte do meu amigo Berilo Wanderley. Afinal, são quase trinta anos de andanças pelos mesmos caminhos.
               A preferência pelos mesmos autores, pelas mesmas músicas, pelos mesmos filmes. O comum vinho da amizade bebido quase todos os fins de semana. É bom pensar, Berilo, que você apenas tenha partido e cultivar a esperança de um impossível reencontro.
               Quem sabe, vou supreendê-lo qualquer dia, na manhã de seu jardim, entre passarinhos, a renovar a água e o alpiste nas gaiolas. Talvez entre seus discos, livros, quadros, batucando na velha máquina a crônica diária para o jornal. Ou num ato de vera premonição vou encontrá-lo às onze horas, como de costume, no barzinho do Nogueira. Berilo velho de guerra, na última vez em que estivemos juntos, o que você queria dizer citando o verso de Rimbaud: "Je suis de la race qui chante dans le suplice".
(Luís Carlos Guimarães)

domingo, 19 de dezembro de 2010

REVIVENDO BERILO WANDERLEY - João Batista Machado


REVIVENDO BERILO WANDERLEY

           Berilo Wanderley passava invariavelmente todos os dias pelo "boteco do Vicente", na Av. Rio Branco, proximidade do Diário de Natal - naquela época funcionando na Ribeira, e ditava uma recomendação: "bota uma cerveja no congelador juntamente com um copo de aluminio". Às 13 horas, com os trabalhos da redação encerrados (o jornal era vespertino), Berilo chegava ao bar, enchia o copo, virava-se para o muro do Salesiano e erguendo-o, como se fosse um troféu, dizia solenemente: "Obrigado, Senhor, eu não mereço tanto!"
            A cerveja descia macia pela garganta sedenta. Repetia esse ritual diariamente, acompanhado de outro colegas, após cumprir missão de fechar o jornal do "britânico" Luiz Maria Alves, que detestava o local, onde seus repórteres e funcionários faziam o "extra" à tarde e a noite. Seguiam Berilo, Sanderson Negreiros, João Gualberto, Alexis Gurgel, Rubens Lemos, Domício Ramalho, Paulo Tarcisio, Silvino "o gordo", eu e outros companheiros.
             Era uma figura marcante para nossa geração que o tinha como irmão mais velho. Fazia tudo dentro de um jornal, Copydesk, redator, crônista, crítico de cinema, chefe de reportagem, editor. Desempenhava essas funções com competência. Excelente titulista, era capaz de fazer vários, quase ao mesmo tempo, com uma rapidez incrivel e sempre acertava na primeira vez. É dele a frase famosa, quando alguém tentava e desistia: "O título existe, basta procurá-lo".
             Uma das coisas boas que o jornalismo me permitiu, foi conhecer figuras como Berilo Wanderley. Ele conseguia ser ao mesmo tempo, introvertido e brincalhão. Numa mesa de bar sua presença era imprescidível. Adepto da MPB, gostava de batucar com seus dedos ágeis, cantalorando sucesso de Pixinguinha, Noel Rosa, Ataufo Alves, Cyro Monteiro, com ritmo e cadência, régua e compasso.
             Tive o prazer de trabalhar com ele nas redações da Tribuna do Norte e Diário de Natal, onde aprendi não só lições de jornalismo, mas de humanismo. Berilo era desprovido das vaidades materiais e vestia-se com simplicidade franciscana e não era a toa que seu nome era Francisco. Sempre com bom humor mexia com um colega ou outro dizendo uma prosa: "Poeta, termine logo pra gente tomar uma".
              Conviver com ele foi uma das coisas mais boas de minha vida profissional. Simples, descobridor e frequentador de "botecos", dentre eles o bar do Nazi, na Cidade Alta, de quem era amigo e freguês assíduo. Detestava bares e restaurantes requintados, com exceção de Nemésio, de quem era íntimo, usufruindo das regalias do espanhol. Morou durante um certo tempo, na década de 60, em Madrid e estreitou ainda mais seus laços de amizade com Nemézio que, como ele, também era apreciador de bons vinhos.
               Não gostava de futebol nem de política e fugia de qualquer mesa quando os assuntos eram abordados. Porém, por mais incrivel que possa parecer, o poeta era frequentador de um bar em Madrid, onde o atacante Vavá tinha presença assídua após as vitórias do Atletico de Madrid. No bar, eles se conheceram e ficaram amigos. Anos depois, contando-me o fato, perguntou-me: "Machadinho, quem é Vavá?", eu respondi que era jogador de futebol, bicampeão do mundo e que fazia sucesso na Espanha. "Bom, basta! Tomei muito porre com ele".
               Pelo episódio acima citado pode-se notar que era completamente desligado de certas coisas. Pôs anúncio no jornal para vender seu velho "Dauphine" e o interessado foi procurar o poeta em sua casa em um sábado à tarde, horário inconveniente para tratar de negócio com o boêmio. O cidadão apresentou-se a sua mulher Maria Emilia e iniciou a negociação.
               O poeta foi acordado pela conversa dos dois em torno da venda. Maria Emilia elogiando o carro e o comprador, logicamente, tentando reduzir o preço. Berilo acorda, levanta-se, vai até onde estão os dois e diz, enfaticamente: "Meu amigo, vá embora que esse carro não vale nada, dá mais despesa que uma familia, procure coisa melhor e me deixe dormir".
                Voltou para o quarto e deixou Maria Emilia desesperada e o comprador atônito. Assim era a figura de Francisco Berilo Pinheiro Wanderley, que pediu demissão do cargo de promotor público, para não ter que acusar o próximo, fato inédito do Ministério Público. A função era incompatível com seu temperamento. Nunca o vi falar mal de ninguém. O máximo que dizía quando alguém comentia um deslize era a frase que ele já tinha na ponta da língua: "Não está sabendo envelhecer com dignidade". Sinto falta da sua presença amiga nas minhas caminhadas pelos os bares da vida. 
(João Batista Machado)
                

BERILO, O BOM - Tarcísio Gurgel

BERILO, O BOM

            Vi-o irritado apenas uma vez, em nossa convivência, porém relativamente longa. Mas, de tão mesquinho o episódio nem convém voltar a lembrá-lo porque ele próprio, se alguma vez forçado pelo atrevimento do papo ocasional voltou a tocar no assunto, recriou a sua revolta, transmudou-a em ironia. Estilo Beriliano.
             Por isso, pela certeza de sabê-lo alegre, alegre como, por exemplo certa aragem matinal espalhando cheiro de manjericão, como a alegria de saber que o nosso time é campeão, como o sabor definitivo do sumarento caju após a dramática ingestão de um gole de aguardente, é o que foi duro sabê-lo arredado deste convívio.
             O meu amigo Berilo não viveu, apenas. Vivenciou a vida de uma maneira intensa, arraigadamente solidária que nem viu apóstolo desses que embrenham por terras ignaras professando humanismo. Um Schwieitzer, vivendo em terras pretensamente civilizadas.
              Ancorou suas mágoas, seus medos, tímidas alegrias na crônica do cotidiano e aí se refugiava na hora indecisa, senhor dos seus próprios domínios, ouvindo o ressonar suave da mulher e dos filhos, enquanto recriava a vida. Enquanto o cotidiano lhe apresentava, na cidadezinha do interior e porcos que disputavem cá fora na cidade grandem num estar acontecendo que atonitizava.
               Em outra sorte de pessoa. Não era como a gente, não, que tem de continuar a destilar lágrimas para justificar a expressão correta que dá nome ao Vale.
               Afastou-se da glória o quanto pôde, recusando-se de modo sistemático a assumir a postura do magnífico ficcionista que teria sido, se o quisesse. À poesia realizada (numa terra onde os equívocos pululam, a pretexto de justificar uma quadra popular que, normalmente, interpretamos como testemunhadora de uma agradável realidade - nunca uma gozação do povo), não conseguiu escapar, e suas crônicas, mesmo aquelas mais despretenciosa eram perpassadas do sentimento poético.
               Mas, o que Berilo foi em maior escala, indiscutivelmente, foi personagem maravilhoso de um romance que ainda não foi escrito e cujos protagonistas seriam os membros de uma reça que se encontra cada vez mais reduzida: a dos homens bons.
               A cada porrada, na vida, ele se esquivava rápido, como se estivesse a executar uma verônica, nas terras inesqueciveis da Espanha de Lorca (aquele mesmo Lorca a quem não permitiram que continuasse sendo bom): a cada nova mágoa, ele erguia um brinde de travoso vinho que, aos seus lábios, sabia doce. Roterista de si mesmo, o filme de que participou, na condição de ator excepcional, conta a história de um homem bom, de grande talento, que o Rio Grande do Norte malgrado seu não conhecerá por inteiro.

(Tarcísio Gurgel)


sábado, 18 de dezembro de 2010

O CARNEIRO - ilustrações de Newton Navarro

O CARNEIRO

A faca do dono
Furtou-lhe as maduras manhãs
e o olhar pacífico.
Na cabeça esfolada e vermelha,
o olhar é crítico.
Não contra a sesta do dono,
mas contra os senhores do mundo
e seus jogos da morte.
Jogos que também lançam o homem
contra o homem,
nas conferências pró-paz
e nas guerras de muitos megatons.

Mas o carneiro sorri, irônico,
do dono e de sua bomba
e vai matar o homem em sua
gula sarapatel.

(B.W)

BERILO WANDERLEY - Myriam Coeli de Araujo

        BERILO WANDERLEY

          Aqui estamos derrubados pelo seu silêncio. Não é feito o teu silêncio de paredes de ar para que a magia de nossa fraternidade o desfaça, mas de conciência eterna, tão sólida, tão fria que não alcançamos.
         Todos os seus amigos, essa comunidade de irmãos, que entranham aos mesmos ideais e na mesma perseguição de beleza e da curiosidade que as coisas escondem ou no sonho da boemia, todos disfarçamos as mãos sobre os olhos, porque bem sabes....
         Quero te dizer uma coisa linda e que te vai emocionar, meu caro BW - o amor que com Maria Emilia cultivaste está hoje como uma canção em todos os corações, pelo poder do encatamento que foi, pela dádiva da pureza e da singularidade que a lição amar trouxe. Essa reciprocidade de amor que te levava e a ela aos botecos e aos lugares mais sofisticatos em busca de vinho e de alegria ou que te escondia e a ela na fortaleza de tua casa, esse amor só adoração, fica tranquilo: será conservado tão forte e tão real, tão lindamente humano quando meteoricamente divino por tua mulher. Ela te manda dizer isto, agora que o reflete sobre os filhos que assinalam a tua presença entre nós.
          Como te lembramos nas coisas simples que construías da grandeza de tua dimensão humana! Irmão dos pássaros, que alimentavas em teu quintal e das coisas singelas que a natureza cria, tu também te chamavas Francisco, não o de Assis, que a estas alturas contigo já deu muitas glórias ao Sol, à Lua e as Estrelas, mas Berilo, daqui desta brava, linda, terna e cruel cidade. Uma cidade que tu lamentavas não haver parado no tempo das charretes para os passeios vesperais com Maria Emilia e crianças.
           Por essas coisas todas, tocadas de tanta poesia, é que ficarás em nossos corações, justo como uma rosa em um jarro. Irmão como és, permanecerá nessa querência de ternura que o tempo, agora de ti afastado, nos aproximará novamente, não em nossas casas, mas em uma das moradas de Deus, onde possas repetir o gesto do vinho, da música e do riso, onde te síntas parte, mas tão íntegro e tão íntimo como em nossa casa. Ouviremos novamente Maria Emilia cantar aquelas cançõezinhas em francês de que tanto gostavas.
 (Myriam Coeli de Araujo)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

PAVANA PARA UM AMIGO AUSENTE - Augusto Severo Neto


PAVANA PARA UM AMIGO AUSENTE
Poeta, meu bom poeta,
de outras plagas agora
bebendo vinho de nuvem
comendo queijo de aurora
tira-gosto de ambrosia
numa bodega celeste
bandeja de estrela d'alva
som de sino, rosa alpestre
largo balcão de arco-íris
lareira de sarça ardente
Poeta, meu bom poeta
por que foste de repente?

Ainda havia tanta coisa
a fazer, meu bom poeta,
tanta taça ainda cheia
tanta poesia incompleta
tanta noite moça ainda
querendo ser conquistada
tanta rota de navio
sem ter sido navegada
tantas esquinas da vida
tanta estrada, tanta trilha
tanto samba a ser cantado
só uma Maria Emilia
mulher, companheira, amante
namorada, colombina
parceira multiplicante
fêmea madura, menina
sabendo ser madrugada
gargalhada, riso quente
que teve o riso partido
quando te sentiu ausente
Poeta, meu bom poeta,
por que foste de repente?

Poeta, meu bom poeta,
amigo de muita vida
te recordo, luminoso
voz macia, taça erguida
pierrot chapliniano
mestre-sala, companheiro
bigode parnasiano
coração de mundo inteiro
cantor de terra de Espanha
andaluz e Iorqueano
navegador de serestas
navegando a todo pano
ergo a taça dolorida
à tua presença ausente
Poeta, meu bom poeta,
por que foste de repente?

(Augusto Severo Neto)

CATITA CHORO E GAFEIRA

Música de Berilo Wanderley com Rubens Lemos, regravada pelo Catita, choro e gafieira

A MÁSCARA

A MÁSCARA
A máscara que uso,
 uso por causa do meu vizinho,
que me viu nu;
que me viu arder na tarde brava,
caos e ordem, rei azul.
Esta máscara em desuso
que hoje uso,
me fere o rosto.
Meu vizinho quis assim.
Mas, ontem,
vi o rio e a ilha
e fui rei posto.
Juventude, eixo e todo do meu corpo
que meu vizinho cortou.
Passa o alento,
 passa lento o vento,
já não sou.
(B.W)

CHORO PARA BERILO - Ney Leandro de Castro


CHORO PARA BERILO

Quero lembrar o poeta
na vida que ele vivia,
não na merda dessa morte
que levou a revelia.
Quero lembrar o poeta
erguendo taças de vinho,
amando Maria Emilia
e sendo amado: painho.
Quero lembrar o poeta
cantando um samba-canção
de Lupiscinio Rodrigues
destroçando coração
(ai, poeta, o coração é musculo que arrebenta
as cinco da madrugada sem poesia ou clarineta).
Quero lembrar o poeta
do jeito que ele era:
sarcástico como uma flor,
suave, estranha fera,
olhos claros de berilo,
cabeleira leonina,
ardor de quem ama a vida,
timidez beneditina,
equilibrio dos contrários,
água e vinho em mesma taça,
o connaisseur de cognac,
o bebedor de cachaça.
Quero lembrar o poeta
solfejando Pixinguinha,
relendo seu Dom Quixote,
pensando em ilhas marinhas,
na ressaca da ressaca
do claro mar da Redinha
Quero pedir, se é que posso:
Não vá, não, meu poetinha
                                                   (Ney Leandro de Castro)

DO LIVRO 400 NOMES - Natal 400 anos

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CANTO ÚLTIMO

Canto último
E um dia, quando eu nada for,
quando o brilho dos meus olhos,
 vazando, se diluir na terra,
e os vermes corromperem meus lamentos
e prostituírem meus melhores pensamentos;
nesse dia, quero que digas
que ao menos para ti eu fui bom.
E que meus olhos sempre te ofertavam cantigas
quando, nas tardes,
vinhas vaidosa dos pecados que me trazias.
E beijavas minhas lembranças
 boas e más, em minha fronte.
E diluías teu sorriso em minha boca.
Depois, teu corpo brotava dos meus dedos,
e respiravas, então profundamente...
Dize, e minha sombra não se abrirá
 em cruz nas estradas nuas.
Dormirá tranquila,
 apascentando os seus próprios pecados.
Dize, e o ermo do meu chão,
onde minha palavra se tornará pedra
e meu riso se fará lodo,
será menos ermo
e será menos chão.
(B.W)